Foto do escritor: Dra. Suely Pereira dos SantosDra. Suely Pereira dos Santos · 10 de jul. de 2025 · 3 min de leitura

Violência Obstétrica no Brasil: Entenda o Problema e Suas Implicações na Saúde da Mulher

Atualizado: 8 de abr.

A medicalização do parto e o apagamento da autonomia feminina

O parto é um evento transformador na vida da mulher. Historicamente, esse processo era realizado em casa, com o apoio de parteiras de confiança, em um ambiente íntimo e acolhedor. No entanto, com a institucionalização do parto no pós-guerra, essa experiência passou por profundas mudanças. A mulher foi afastada de seus familiares, passou a ser tratada como paciente e, muitas vezes, privada de autonomia durante o processo de nascimento.

Apesar da redução da mortalidade infantil com a hospitalização, a mortalidade materna não acompanhou esse declínio. Ao contrário, observou-se um aumento de intervenções desnecessárias, muitas vezes realizadas sem consentimento, o que abriu espaço para um fenômeno alarmante: a violência obstétrica.

O que é violência obstétrica?

Violência obstétrica é qualquer ação, omissão ou conduta abusiva praticada por profissionais de saúde — em instituições públicas ou privadas — que viole os direitos da mulher durante o pré-natal, parto e pós-parto. Ela pode se manifestar de diversas formas: física, psicológica, sexual, institucional, material e até midiática. Exemplos incluem:

  • Episiotomia de rotina sem consentimento;
  • Impedimento da presença de acompanhante;
  • Manobras agressivas como Kristeller e fórceps;
  • Desrespeito à intimidade e à dor da parturiente;
  • Tratamento rude, humilhação, gritos e ameaças.

Tais práticas impactam profundamente o bem-estar físico e emocional da mulher, podendo deixar marcas irreversíveis.

Por que estudar a violência obstétrica?

Este estudo teve como objetivo identificar, por meio de uma revisão integrativa da literatura científica, as principais práticas obstétricas consideradas como violência nas instituições brasileiras. A pergunta central da pesquisa foi: quais práticas vivenciadas no parto são constituídas como violência obstétrica?

Metodologia da pesquisa

Foi realizada uma revisão integrativa, com base em publicações entre 2012 e 2017, utilizando as palavras-chave “violência and obstétrica” nas bases BVS/BIREME e Google Acadêmico. Foram selecionados 15 artigos após análise criteriosa dos critérios de inclusão, com foco em estudos em português que abordassem a violência obstétrica no Brasil.

Principais resultados

A análise revelou práticas recorrentes nas instituições brasileiras, entre elas:

  • Negligência e omissão de cuidados;
  • Violência verbal (gritos, ameaças, ofensas);
  • Uso inadequado de intervenções, como a cesárea sem necessidade clínica;
  • Proibição da livre movimentação e da escolha da posição de parto;
  • Impedimento do contato pele a pele com o bebê e da amamentação imediata;
  • Exclusão do acompanhante durante o trabalho de parto.

Em muitos casos, essas práticas são invisibilizadas e naturalizadas tanto por profissionais quanto pelas próprias mulheres, o que dificulta o reconhecimento do abuso.

O impacto da cultura institucional

Segundo os estudos revisados, há um predomínio de relações hierárquicas entre profissionais de saúde e parturientes, o que contribui para a perpetuação da violência. Muitas mulheres relatam não se sentirem ouvidas ou respeitadas, e os profissionais reconhecem a existência de práticas abusivas como se fossem parte da rotina.

Além disso, os dados revelam que o Brasil apresenta uma taxa de cesáreas muito superior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que varia entre 10% e 15%. No setor privado, esse índice chega a alarmantes 88%.

A importância da humanização do parto

O momento do parto exige não apenas estrutura física adequada, mas, sobretudo, empatia, escuta e respeito por parte dos profissionais. A humanização deve começar no pré-natal, com a oferta de informações, rodas de conversa e acolhimento, preparando a gestante para viver o parto como protagonista.

É fundamental garantir às mulheres o direito à informação, ao consentimento e à liberdade sobre seus corpos. O conhecimento sobre seus direitos fortalece a mulher diante do sistema e pode ajudar a transformar a realidade de outras parturientes.

Conclusão

A violência obstétrica é uma realidade presente e preocupante nos serviços de saúde brasileiros. Ela se manifesta de forma silenciosa, camuflada por discursos técnicos, e muitas vezes não é reconhecida nem por quem sofre, nem por quem comete.

É urgente ampliar o debate, fortalecer as políticas públicas de humanização do parto e capacitar os profissionais para uma assistência ética, empática e baseada em evidências. A mulher deve ser tratada com dignidade, segurança e respeito — como protagonista do nascimento de seu filho.

Referências

Este artigo foi escrito com base no trabalho de conclusão de curso da Dra. Suely Pereira dos Santos.

Notícias

Posts Relacionados

Ver tudo